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  • Rafaela Garcia

Como 6 meses sem compras mudaram a minha vida

A tarefa “escrever meu texto” não saia da minha listinha de afazeres. Dias, semanas, meses (muitos meses!) se passaram e ela continuava lá! Não podia ser uma simples procrastinação, então, parei para avaliar o que me fazia adiar a escrita do tal texto e conclui que ainda não me sentia capaz de compartilhar com o mundo o que gostaria... O tal “meu texto” era sobre a minha experiência sem compras, eu achava que ainda não tinha mudado o suficiente para tentar inspirar alguém. Até que, durante uma viagem, num lindo café como local de trabalho, percebi que não só havia me transformado como consumidora, mas toda a minha forma de enxergar a vida, minhas relações pessoais, minha profissão, meus hábitos... toda a minha vida mudou!

Há exatos 2 anos, comecei a perceber que havia algo errado na minha forma de consumir roupas! Eu nunca repetia! A cada ocasião comprava uma peça nova, sendo que até uma reunião de trabalho era motivo para a compra de um look completo. Sempre que ficava sozinha, algo comum no meu dia a dia, ia para o shopping fazer compras... Gastava tardes inteiras da minha vida nos corredores abarrotados buscando algo que não estava ali! Na verdade, era uma forma de justificar todos os dias que eu estava trabalhando em algo que não me preenchia, mas que me proporcionava aqueles momentos de prazer ao comprar uma blusinha, um sapato, um vestido com decote nas costas (que eu nem gosto)! Sem contar o valor que eu dava para as marcas, como resisti ao Fast Fashion... era barato demais para preencher o meu vazio! A vendedora é boazinha? Vou comprar esse vestidinho estampado de R$400,00 que não tem nada a ver comigo então! Tá chovendo? Vou entrar nessa loja aqui e comprar uma blusinha para esperar passar! Tudo era um motivo para consumir, sem pensar, sem precisar, sem consciência, apenas consumismo.

Para me desafiar a mudar, criei um instablog chamado Armário Revoltos, porque além de consumista eu era (isso ainda sou) acumuladora e tinha necessidade de prestar contas da minha evolução! A ideia era parar de comprar roupas novas para todos os compromissos que surgiam e me virar com o que já tinha, nesse processo fui redescobrindo o meu armário, percebendo que se vestir é um belíssimo exercício de criatividade e descobrindo que criar novas combinações e resgatar peças era tão prazeroso quanto comprar algo novo, aliás, é até mais gostoso! Meus gastos diminuíram consideravelmente, passei a me interessar muito pelo impacto da indústria da moda e vi que não dava para o mundo ter várias Rafaelas... nossos netos não teriam onde viver! Sem contar o impacto social, donos das grandes redes no topo da lista da Forbes e costureiras morrendo em desastres! Eu estava me tornando mais consciente, mais preocupada com o mundo, com as pessoas, não importa que estejam do outro lado do mundo, são pessoas! Como ser humano, me senti na obrigação de fazer algo.

Quanto mais me informava, mais via que precisava de uma medida drástica, nesse momento resolvi que ficaria 6 meses sem comprar nenhuma peça de roupa ou acessório. Confesso que o início foi bem complicado, já que as compras eram muito mais do apenas compras, era a justificativa do meu estilo de vida, minha fuga, meu prazer... cheguei a transferir a compulsão para a comida! Engordei muito, cheguei no maior peso que já tive na vida! Em paralelo, comecei a me interessar por temas como slow living, minimalismo e propósito... e foi quando me dei conta do que as compras representavam para mim! Parar de comprar não era o bastante, se a minha vida continuasse como estava eu iria pular de compulsão em compulsão, fuga em fuga, tentando encontrar algo que sempre esteve dentro de mim!

Durante o período sem compras busquei alternativas que suportassem a decisão de transformar para sempre os hábitos de consumo. Os 6 meses acabariam, mas eu já não via mais sentido em sair comprando como comprava antes. Frequentei eventos de troca, conheci brechós e a linda iniciativa que é o armário compartilhado. Me tornei consultora de estilo, com uma abordagem super humana e sustentável do vestir! As roupas são a nossa principal forma de expressão... me apaixonei pelo tema! Não é futilidade, é lindo, é necessário, faz bem pra gente e pro outro... É sobre respeito, empatia, cuidado, compartilhamento... Encontrei meu propósito, na verdade, o propósito de uma menininha que passava as tardes desenhando roupas para as suas clientes imaginárias, que lia vogue aos 10 anos de idade e assistia GNT fashion, mas que quando cresceu, por milhares de motivos, desviou do caminho!

Hoje, quase um ano após o término dos 6 meses sem compras, priorizo segunda mão, pego emprestado, troco, reciclo, vou aos shoppings para comer, sou sócia do armário compartilhado MagMov, coletei centenas de peças de roupas para ressignificação, participo de rodas de bate papo sobre consumo consciente, ministro palestras sobre novas formas de consumo e a importância de se expressar corretamente ao se vestir, li 3 livros esse ano (para mim é algo realmente incrível) , vi dezenas de filmes e documentários inspiradores, conheci pessoas super interessantes, que compartilham e não competem, lindas histórias de vida e muita vontade de fazer acontecer ! Tenho uma enorme satisfação de ver que o meu trabalho faz bem pro mundo, inspira pessoas e me preenche... Tenho mais clareza de quem sou, sou mais fiel aos meus princípios e valores, entendi que o ser sempre será superior ao ter e que colecionar momentos ao lado de quem a gente ama é muito melhor do que ter armários abarrotados!

E eu achava que ainda não estava preparada para escrever o “meu texto”, parece que eu estava apenas me cobrando demais! Algumas coisas demoram mais para mudar, mas estou no caminho!


Rafaela Garcia



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